Hoje, você foi dormir mais cedo.
Buscou na noite os velhos sonhos e um novo enredo.
Sorriu para o nada, de nada serviu.
Deitou na cama como se ainda fosse uma pequena criança,
cobriu seu corpo dos pés até onde alcança
e se escondeu por debaixo dos sonhos
como se o medo não soubesse alcançá-los.
Amanhã, você acordará mais tarde.

[Eu me chamo Antônio]

conversa reticente

– Você mentiu pra mim.

– Em que momento? Sempre deixei claro que não queria um relacionamento.

– Mentiu pra mim exatamente sobre isso. Não é uma escolha ter um relacionamento quando você se relaciona com alguém, é a consequência.

– Você entendeu.

– Mesmo assim. Não pode apenas usar as pessoas e suprir suas próprias carências ao bel prazer. Isso não passa de egoísmo.

– É por isso que não quero relacionamentos… Olha, eu gosto de você, mas não é com a reciprocidade do seu gostar de mim, entende? E ninguém tem culpa, sabíamos onde isso ia dar.

– Isso o quê? Nós? Você também sabia pra onde guiava minhas expectativas e ainda assim seguiu adiante, não me culpe por um erro conjunto.

– Olha, é justamente isso, eu não quero te culpar, nem me culpar, as coisas aconteceram e aconteceram até aqui, até esse momento, quando estamos tentando clarear todas elas pra justamente não mais acontecerem, não é?

– A solidão é sempre escolha sua, não percebe?

– Sim, eu sei.. Um dia minha única companhia vão ser os arrependimentos pelas expectativas que não verbalizei. Não se preocupe, já dói agora.

– Okay. Nesse dia, não venha chorar sua hipocrisia no meu ombro.

queria poder dizer que essa é a última vez que escrevo sobre você

olha pra mim.

queria falar com alguém sobre você; ninguém mais ouve. ler as cartas que escrevi, dizer que até tentei desenhar algo sobre o que sinto.. não sei, nas vezes em que não tenho tentado fugir ocupando minha agenda com descompromissos fúteis, é difícil encarar. deixo doer. mais fujo, é verdade, mas às vezes acontece.

não foi à toa que eu cheguei a ti.
se a essas ruas sobrevivi,
e nessas praias não me afoguei,
foi só porque
tinha algo a dizer
pra você.

é tudo tão confuso.. malditas reações químicas cerebrais. tenho vontade de gritar tão alto, acordar os vizinhos, movimentar as sacadas do prédio em frente, parecer um pouco louca e totalmente desequilibrada.

vê, em ti
há tudo que você quiser.

tenho vontade de deixar as coisas saírem do controle e me perder, te perder na memória, não saber onde deixei a saudade.

da coragem à hesitação,
ama o que te treme as mãos.

deixar a porta aberta, mas não pra que você entre; depois que eu for embora.

não te deixa derrubar.

as coisas seguem acontecendo como se não tivesse uma cena de crime dentro do meu coração: todas as gavetas reviradas, muitas memórias perdidas, marcas de que alguém passou por aqui.

será?
a hora é já, meu amor..

por quê? você não chegou a saber quanto tempo levei pra colocar tudo em ordem e chegou com todo esse disparate, nem pediu permissão, como ousa? nem pude gritar com você, eu queria gritar com você!

meu peito é um vulcão em erupção; meu coração é uma folha de hortelã que não entende a infusão em água quente.

tem, em mim,
tudo que você quiser;

coleciono pequenas mágoas, eu sei. não sei onde errei, ainda. presto atenção nas letras e filmes, nos livros e nas lições cotidianas. nenhuma peça encaixa esse quebra-cabeça, eu não consigo identificar o desenho, o que foi que eu perdi?…

tudo que faltou no amor,
tudo que jamais terá.

ligo as luzes para dormir, acordo antes do despertador, minha vida é quase uma fórmula matemática programada pro resultado me manter longe. artifícios não faltam, vícios me acompanham, eu quero saber o que fazer.

tem uma saudade incorrigível circundando a casa, os móveis, eu sinto o cheiro dela no vento. não tem jeito, não tem cura, essa é uma saudade insolúvel, indissolúvel, incalculável, imensurável. sentimentos se misturam, pessoas se misturam, dores se confundem – ainda consigo distingui-las, mas elas parecem não se conseguir mais se separar. até o sabor é o mesmo.

vem cá,
eu vou te dar
tudo de mim

queria poder dizer que essa é a última vez que escrevo sobre você. queria dizer e queria que fosse verdade. queria continuar sem tempo para pensar nas coisas que aconteceram, em como elas se desenrolaram. como tem sido? como tem estado?..

e o amor
irá
nos acompanhar 
até
o
fim.

[https://youtu.be/Ox5O_9hN8xc]

para uma avenca partindo

*texto de Caio Fernando Abreu, no livro O ovo apunhalado

(Medianeras, 2011)

Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer
atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? Por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ……… ………… …………. ………… ………. ……….. …………. ………… ………… ………… ……… ……….. ………… ………… sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.

[https://www.youtube.com/watch?v=w8PQ27-LtE8]

Abriu o sol, não só lá fora. As nuvens clarearam aqui dentro também.

Minha mente tá um turbilhão de coisas acontecendo, fragmentos de todas situações e de como as coisas chegaram onde chegaram e porque acontecem… assim.

É engraçado que tenha voltado a usar esse espaço e realmente surpreendente que tenho dito tantas coisas aqui. Mas, como tudo nesse texto, isso tem a ver com a última vez que me apaixonei.

A paixão é tipo a irmã mais nova do amor; a impulsiva, solta, agitada, cheia de expectativas pré-estabelecidas – pelo amor. A expectativa dos apaixonados é amar. O amor, irmão mais velho, com expectativas ainda maiores sobre si, mais pesadas, suspeitas mas desconhecidas – o que acontece quando se torna amor?

As coisas acontecem.

Passo horas desenhando, escrevendo, lendo e cantando coisas que penso que sinto, que quero sentir, que espero sentir; não sei se sinto. Passo horas tentando entender como acontece isso, de uma pessoa totalmente estranha e desconhecida, passar a ser importante, lembrada, esperada, querida com tanta vontade, com tanta força. Será?

Desde ontem tenho estado focada em clichês aleatórios – amo e odeio clichês. O que me veio hoje, entre um sono e outro, foi o mais difícil de reconhecer quando se espera tanto pelo amor. Na maioria das vezes, o que sentimos ou pensamos sentir por outras pessoas é só uma projeção do que queremos. Alguém disse isso. Talvez mais de uma pessoa. E nossa mente ouve só o que quer ouvir, quando quer. Não quis ouvir, até hoje.

post-medianeras

É difícil conseguir admitir as falhas, os buracos, as sombras e as verdades de si mesmo. Mas eu me julgo e me absolvo, somos todos propensos ao erro. Aliás, o erro é o que mais e mais profundamente nos ensina. Aí venho eu questionar o que eu mesma chamo de erro, por que quem disse que é errado porque não aconteceu de acordo com as nossas expectativas? Disse que tudo tava um turbilhão.

Eu gosto da verdade. Das coisas como elas são. O que me incomodava nesse episódio era nunca saber como as coisas estavam, que coisas eram essas e se a via era mão-dupla ou eu tinha embarcado sozinha e sem saber onde ia parar – havia um par de braços onde eu queria descansar dessa espera e, depois, dessa caminhada, desse trajeto; as coisas estariam no lugar. Não é assim.

O táxi já estava ocupado, o caminho não era esse. Andei torta e cambaleante, sempre em dúvida e inconstante, até aqui, até hoje. As coisas acontecem. Desci. Ainda não sei pra onde sigo, mas também fica mais fácil quando não se tem caminho determinado e já se sabe por onde não ir.

Dei-me conta, ontem ou anteontem também, de que estive acostumada por muito tempo a ceder às expectativas alheias e viver a minha melhor versão aceitável socialmente. Gostaria de não ter perdido tanto tempo, gostaria de não perder mais tempo. Tenho pressa de viver, assim como Belchior cantou.

Também tenho medo, tenho ânsia, tenho sede. Essas coisas são mais complexas na vida adulta.. mas acontecem.

pensei em como gosto das coisas que você gosta. das coisas que traz consigo e não diz. das coisas que vejo atrás das coisas que mostra. ou imagino, ou espero, ou quero. sim, eu quero. pensei nas trocas, nas entregas e nas expectativas. pensei nas músicas, nas letras, nos traços. pensei nos livros e nas histórias, escrevi uma inclusive. pensei no medo, no sonho, no susto. pensei na espera, no aguardo e na falta de pressa. você vai chegar, eu sei.

mala. táxi. partida. ônibus. desembarque. rodoviária. táxi. chegada.

não sei se mais quero ou se mais penso, se mais sinto ou se mais espero. quero gritar, mas me contenho. contenho o grito, o beijo, o salto – e nem é no escuro. quero controlar e me perder, me contradigo quando o que mais quero é não saber o que fazer, viver a expectativa do amor novo, do amor bonito, do amor dos livros e dos teus olhos. sentir o encaixe, o suor e a saliva. sentir o pulso e pulsar junto. planejar e improvisar. amar adulto, amar maduro, amar igual fruta tirada do pé; entendemos e, ainda assim, sentimos como na infância, na delicadeza da essência, na beleza do não-racionalizar e só – e tanto! – sentir. (…) um dia me disseram que o melhor a se fazer quando não se sabe o que fazer é não fazer. me consumo dentro da minha cabeça, meu peito grita e anseia, meu corpo precisa: é, sou uma criatura movida pelo amor que não sabe se um dia amou.

partida. rodoviária. embarque. ônibus. táxi. chegada.

pensei em contornar teus lábios com os dedos, em enrolar meus cabelos nos seus e deitar sobre um ombro – parece que fui feita para caber ali. é coisa de oitava série, disseram, quando contei. ouvi, fiquei chateada. meus amores de oitava série não saíram dos textos que escrevi – será que vai ser assim mais uma vez?

chuva. estrada. mala. passagem. rodoviária. partida.

nunca fui de me apaixonar. nunca fui de muitos amores. não entendo esses laços de fita lisa e frágil que se desfazem a cada pouco… sempre fui corda, fui nó, fui firme e estável. nunca gostei de muitas entregas, mas entregar muito – ou tudo – onde quer que entregue.

chegada. táxi. chuva. sono. saudade.

saudade da entrega, do nó nos dedos, nos cabelos, nos cadarços, nas mãos. saudade de enroscar pernas, lembranças, memórias e histórias. tenho pressa, tenho ânsia e tenho medo. fico, espero. o amor baterá na porta, na aorta e na ponta dos dedos. espero.

Na praça, o cachorro transpira felicidade e excitação quando o tutor joga a garrafa pet para brincar. Ele, incansavelmente, traz de volta toda vez. A praça está cheia, é dia de semana e o ano parece estar terminando… sinto no ar a ansiedade pelas tardes livres da escola, da mochila e do horário de tomar banho. A felicidade é tão sublime… parece aquele filete de luz que atravessa as janelas e reflete um arco-íris linear e incompleto, mas nem por isso menos bonito e delicado. Quais são suas cores?

Na rodoviária, as pessoas trocam olhares e abraços de saudade, alegria e alento. Carregam malas, memórias, casacos e cobertores. Estão indo e vindo e voltando e circulando. Estou…?

Nas ruas, todos sorriem, andam, compram e conversam. Trocam passos, toques, meias-palavras, trocam de lado, trocam de feições ao avistarem conhecidos e desconhecidos. Apaixonam-se, esquecem, seguem. Tomam um sorvete e nada aconteceu.

No campo, a menina corre e encaracola o vento em seus cabelos. Encontra flores, grama e espinhos. Encontra pássaros, ares e se encontra. Pisa na água, no barro, no céu de brigadeiro, no céu da boca de um riso tão grande que parece engolir aquela liberdade e sentir primeiro pelo lado de dentro – dos olhos.

Na cama, acordo pela terceira vez sem entender a falta de sono e o excesso de cansaço. Na janela, fito a imensidão do céu e me reconheço minúscula e impotente, mas ainda assim parte de tudo aquilo, de tudo isso. Não consigo definir se somos grandes demais, pequenos demais, finitos demais, infinitos demais… Não defino e não sei, cada vez sei menos e corro na direção contrária. Quero sentir mais, quero sentir menos, a dor é constante. Amar até doer de amor, amar até doer de dor, amar até doer saudade, até doer ausência, até doer ansiedade, até doer a barriga de tanto rir, até doer o braço de ter o peso do amor deitado ao lado.

Apresso-me para viver, a vida não tem pressa, não nos encontramos e nem nos perdemos, onde estamos? Para onde vamos? Será que temos espaço para irmos juntos, ao lado, em frente? Se me perguntar, eu tenho, vamos?

queria encontrar o fio que desenrola o novelo dessa história, onde foi parar essa ponta desfiada e sem nó, sem começo, sem meada. me pergunto se esse fio liga a gente de alguma forma ou apenas nos enroscamos no fio de alguém, distraídos, enquanto trocávamos olhares profundos como se fôssemos nos ver primeiro pelo lado de dentro e admirar cada pedacinho da alma do outro enquanto lemos as marcas que a vida nos deixou com as mãos, contornando o rosto, as linhas dos olhos, o delineado das mãos e os enredos dos fios de cabelo.

me perdi no teu labirinto, no teu infinito, quero te ler domingo de manhã acompanhando uma xícara de chá preto ou de hortelã ou de hibiso, que são meus favoritos, se ainda não te contei, e ouvindo aquele disco dos baianos que eu amo tanto. e faz um friozinho de outono anunciando inverno, mas não nos importamos, temos uma coberta jogada na sala e os três cachorros enroscados nos nossos pés, a lua transita em aquário e conversamos empolgados sobre problemas mundiais sem solução mas que principalmente por isso nos incomodam.

trocamos segredos silenciosos, somos cúmplices, amantes e sem juízo. queremos as mesmas coisas por caminhos diferentes, compartilhamos as mesmas ideias com pensamentos distantes, entrelaçamos os dedos e as vontades, sabemos que vamos seguir.

vamos fumar um cigarro olhando o sol se pôr, a água correr e a chuva cair. vamos só fumar um cigarro. vamos só cruzar nossos olhares e saber o que queremos dizer, mesmo que nâo falemos nada, nem troquemos sequer um suspiro. saberemos, sentimos.

vai estar tudo bem quando eu ficar horas conversando sobre astrologia e explicando alinhamentos e conjunções e ângulos e apontar o telescópio pra te mostrar a constelação de sagitário. e te explico que nem tem nada a ver com astrologia, mas você nem ouviu, perdeu os olhos nas estrelas e não me escuta mais. te olho, te admiro. vai estar melhor ainda quando te ouvir contar por horas dos livros que tem lido e aqueles filmes estranhos e as bandas novas que descobriu na internet, que colocou algumas delas no meu pendrive e que espera que eu goste do último disco daquela banda que nunca ouvi falar. e vou gostar, você sabe.

faremos planos de comprar um telescópio melhor e um toca-discos, compraremos discos e quereremos expor as fotos que vamos tirar do nosso próprio infinito. sonharemos com dias melhores e até cogitaremos adotar outro bichinho. esqueceremos tudo que doeu e sentiremos doer agora, aqui, nesse momento, a dor agridoce que é gostar tanto assim de tudo que se está vivendo enquanto planejamos a viagem das férias.

iremos e voltaremos tantas vezes, mas sempre saberemos onde vamos estar, cada um de nós e dos nossos nós. então eu finalmente sigo em frente com meu plano de rascunhar um livro e você admira tanto essa ideia e traz uma máquina de escrever. colocamos na sala e deixamos ali vestígios do que sentimos um pelo outro. não é mais segredo, o amor mora com a gente: cantarolamos a rotina de viver sorrindo.

Fico desperdiçando meu tempo escrevendo sobre sentimentos que nem sei se tenho por uma pessoa que nem sei quem é, que nem sei se saberei, que nem sei se quero mais saber ou se ela quer ou qualquer coisa. Quando tatuei “eu não sei” no braço talvez nem eu soubesse o quanto não sei sobre tudo.

no fim das contas, todos estamos por aí, nos debatendo de olhos fechados, esperando magneticamente sermos atraídos e atrairmos a “pessoa certa” pra gente, que se encaixe na imensa lista de pré-requisitos para nos darmos a chance de sentir algo além de melancolia, tristeza e insatisfação com a própria vida. às vezes algumas coisas nos emergem desse mar de sentimentos confusos com doses homeopáticas de felicidade, mas por quanto tempo? logo somos jogados de volta.

nunca sabemos se vai durar uma noite ou uma vida, e na esmagadora maioria das vezes nem nos deixamos saber. canso tanto, reclamo tanto e faço igual… fico aqui, com uma placa de “reservado” na testa pra alguém totalmente incapaz de me ler, me olhar, me querer – ou verbalizar qualquer coisa que acenda uma fagulha de esperança de que não estou fazendo tudo errado, metendo os pés pelas mãos e dedicando boa parte do meu tempo, do meu sentimento, da minha vida, das minhas noites e dos meus textos pra quem não está interessado. como consigo, volta e meia, terminar nesse ciclo, repetidamente? nunca aprendo.

mas, também, como e por que deu certo aquela vez, a primeira, quando fui e depois ele veio comigo e fomos juntos até o fim do nosso caminho? trilhamos juntos e descobrimos por conta própria algumas definições sobre amor, já desatualizadas, mas guardadas num canto especial e frequentemente revisitado pra me lembrar exatamente disso: vale a pena, valeu, a gente pode escrever uma boa história se quiser, se estiver disposto e se encontra alguém disposto a escrever ela junto com a gente.

todos estão indispostamente dispostos, entende? todo mundo quer alguém que entre pela porta do nada, apareça no meio da rua, esbarre num café lotado, pegue o ônibus errado, sei lá. eu só quero alguém que não tenha medo de mergulhar e viver uma história intensa, até que ela seja esgotada em todas as suas entrelinhas, sublinhadas ou riscadas e reescritas, ou não termine, continue de um modo diferente, mas que seja vivida peloamordedeussss

não se consegue mais atravessar um dia inteiro em paz e sem desesperadamente sentir falta de depositar esse amor transpirando em alguém, dividir o travesseiro e a pizza, o controle a lista de coisas a assistir, dividir coisas já assistidas e piadas ruins – velhas e novas – sobre como estamos velhos, cansados e o sofá parece bem melhor que aquele boteco.

queremos entrelaçar cabelos e mãos, fones de ouvido e sentimentos recíprocos, ouvir as músicas e ter em quem pensar, pra quem mandar, marcar naquela postagem, aparecer pra visitar do nada e usar uma camiseta com cheiro pra dormir. amor é loteria, reciprocidade é prêmio.

Virou a chave, passou o tempo. Chegou ao fim esse ciclo.

Mais um, dos tantos de 2016.

 

Acabei de ler um texto incrível de uma mulher incrível e tirei esse óculos que nebulou tanta coisa nos últimos dias. Sabe? Tá andando. Tá indo, se encaixando e vai rolar.

Viver é essa aventura de monociclo em uma corda bamba atravessando um penhasco. Mas a gente chega lá, ainda dá tempo.