despeço

Eu escolhi voltar pra baixo das minhas cobertas, mesmo com aquele sol lindo lá fora no outro dia. O mundo não foi feito pra mim, essa cama de onde escrevo sim. As estradas por onde caminhei até em casa, os bancos vazios das praças e a estranha mania de olhar o céu em qualquer tempo, em qualquer lugar, a qualquer momento, foram. E estou sozinha com tudo isso.

Um banho de chuva não foi tão ruim, mesmo num frio de uns oito graus, sabe. Parece que a gente precisa sentir outra coisa na pele, além dessa realidade que acha que vive. Sinto na pele também as dores das feridas que eu mesma abri e nunca vou conseguir entender por que. E tenho disso: acho que consigo enfrentar as coisas e lidar com elas, mas não… A frustração é como um pedaço de gengibre mastigado na ressaca de um sábado de manhã.

“Já se perdeu, ficou pra trás, como um dia comum”, surge no aleatório e mais uma vez eu confirmo que as músicas sabem o momento que precisam aparecer. Eu sei, não é legal e ainda dá tempo de parar de ler. Sugiro inclusive que faça isso agora, não é menos feio daqui pra diante.

Não gosto de estar triste, mas tem tantas coisas que eu não gosto e nada posso fazer… Só acho que cansei desse jogo que eu nem sei qual é. Prefiro a certeza da minha solidão, que parece amarga, mas não é. Minha solidão é agridoce, como o gosto depois de cada aceno na janela do ônibus, como mastigar esse sentimento que eu não sei definir.

Hoje eu senti falta da época que isso não doía em mim. Andei na chuva, mas com a cabeça erguida. Uma vez um amigo me proibiu de baixar a cabeça, eu tinha uns catorze anos quando fiquei sem saber como lidar com as lágrimas de outra pessoa pela primeira vez. Ele me deu um CD do Metallica, que guardo comigo, mesmo riscado. Andei na chuva, chorei com ela. Gosto de andar por aí, os lugares contam histórias que ninguém para pra ouvir.

De qualquer forma, essa é uma espécie de despedida. Foi muito bom estar na sua casa, seu chuveiro é realmente agradável e o quarto de hóspedes é muito confortável, muito obrigada. Mas hoje eu preciso voltar. É, eu sei que não tenho compromissos, mas escuta. Existe toda uma bagunça lá dentro que uma hora eu vou ter que arrumar e daqui eu não posso fazer isso. Existe toda uma vida esperando que eu viva ela e ela é minha, do meu jeito, entende? Desculpa, eu não posso ficar.

Você me acolheu e deu todo o espaço que eu pedi, nunca vou poder agradecer… Olha, eu já ouvi isso, você sempre diz que o mundo é maior que o meu quarto, parafraseando aquela música, mas talvez o mundo que eu queira viver não seja. Espero que você não me esqueça por isso, mas eu estou voltando pro lugar de onde eu nunca devia ter saído.

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