solidão

Enquanto as tábuas rangiam tarde da madrugada, Carolina apreciava enfim sua solidão. Apesar de ter sido uma opção, não foi bem uma escolha: tudo que havia acontecido nos últimos cinco anos tinha invariavelmente direcionado a bela jovem até esse momento. A solidão, sempre tão amarga e escura, parecia ter o sabor das geleias mais doces que Carol já havia provado. Ela, enfim, pôde associar solidão com paz e seguir em frente.

Acontece que nos últimos cinco anos, Carolina permaneceu casada com Henrique, um rapaz que ela jamais imaginou igual e que havia roubado seus encantos. No decorrer do tempo, trocou todos por desencantos. As mesmas tábuas que Carolina ouvia ranger contavam as histórias das outras mulheres de Henrique. Tudo que acontecera em todos os cômodos daquela casa parecia pairar no ar e não importava o que a moça fizesse, voltava à tona em algum momento. Mesmo tentando construir uma história em cima daquelas, ela não conseguia deixar de pensar que naquele sofá, naquela cama, em baixo daquele chuveiro, a história não era dela. Ela era apenas uma atriz substituta.

Como ferrugem, isso foi corroendo aos poucos tudo que Carol havia alimentado sobre o que ela pensava ser o último relacionamento de sua vida. Para ajudar, Henrique não parecia querer fechar os outros livros. Continuava revivendo as outras histórias através de fotos, mensagens, lembranças e saudades. Ele nunca quis se desligar do passado e ficava tornando-o presente. De tempos em tempos, todos ao redor percebiam. Mas o que poucos sabiam, era que no íntimo, Henrique nunca havia esquecido e até alimentava algum sentimento bom pelo passado.

Isso, entre outras coisas, foi fazendo Carolina se fechar cada vez mais. O encanto foi se perdendo, sendo trocado por algumas mágoas, e Carolina foi se afastando de Henrique, de tudo que havia construído em cima das outras histórias e das possibilidades que o destino ainda aguardava para os dois. Henrique, sem entender muito, apesar de Carolina sempre expressar tudo, foi se desiludindo com a moça.

No início, Henrique não conseguiu comparar Carol a nada que não fosse um grande chumaço de algodão doce cor-de-rosa, uma nuvem feita de pétalas de rosa ou a música preferida de sua vida inteira. A culpa não foi de ninguém. Carol apenas mostrou que dentro da nuvem haviam espinhos, grandes e dolorosos. Henrique, que não estava pronto pra fazer uma escolha.

A vida, na verdade, tem dessas coisas. Nunca sabemos se vamos acertar o passo, ou se sabemos dançar. Tentamos. Nos espetamos com os espinhos dos outros, nos perdemos dentro de nosso próprio labirinto. A vida não é acerto, a vida é tentativa e falha. O que parecia ser o fim, deu aos dois mais uma oportunidade.

Henrique ganhou tempo para ter certeza na próxima vez que fosse dar qualquer passo ou fazer qualquer escolha que fosse influenciar na sua vida e na vida de outra pessoa. Carol aprendeu que nada é definitivo e a solidão, que tanto sempre a assombrou, passou a ser sua mais nova aliada para enfrentar os problemas que não pareciam ter solução. Ambos aprenderam que até mesmo no dia mais escuro, existe um sol que, se não está lançando seus raios diretamente sobre eles, mantém a terra aquecida o suficiente para que a vida continue. E no fim é isso: a vida continua.

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