Inspiração forçada pela perda iminente

Seus olhos, meu clarão, me guiam dentro da escuridão.

Há uns dez dias meu corpo reclama de alguma coisa… Vários remédios, pouca ou nenhuma melhora. Hoje acordei pior que ontem. Já são dois dias de faltas na autoescola, um dia de falta ao trabalho à tarde. Pouco depois de desligar o telefone confirmando que ficaria em casa, ele toca mais uma vez. Não era do trabalho, era da família. Aquela que deixei a uns 300 quilômetros em busca de uma vida melhor. Aquela que mal vejo nas comemorações, quem dirá com frequência. Aquela que faz falta.

A mensagem foi curta e envolveu duas expressões que eu não gostaria jamais de ler na mesma frase: avô e parada cardíaca. Ele tem 80 anos do amor mais puro que já conheci, de uma educação de dar inveja a muita gente letrada e um zelo incrível pelo respeito. É daqueles vôzinhos que só usa roupa social. Sofreu tanto na vida, mas me ensinou muito mais. As lembranças da minha infância, de pequeninha, são com ele. Das tardes sentados na área vendo os lagartos se aproximarem na grama. Daquela risada que eu me orgulhava tanto em despertar. Dele me chamando de “minha namoradinha”. Cobrando meus estudos. Tendo tanto orgulho de mim…

A casa já não é mais a mesma há muitos anos, o mato e o potreiro onde brinquei também não, mas a essência permanece enquanto eles estiverem lá, dona Clara e seu Livino, minha referência maior quando se trata de família. Que me ensinaram a respeitar, a estudar muito, a falar em alemão antes de falar em português. A comer fruta do pé, tomar água da vertente, assar massa na chapa do fogão. Que sempre tem balas, chocolates e a melhor carne de panela do mundo. Que sempre tem um abraço e uma alegria imensa em cada visita.

Não tenho palavras pra explicar o sentimento de agora. Da perda iminente, que bate à porta e todos fingimos não ouvir, não queremos. Levaram ele para um hospital maior, com mais recursos, em outra cidade. Logo ele que sempre odiou sair da sua terrinha. Há pouco tempo ele quebrou uma perna. Ficou um ano e meio sem caminhar, mas se recusou a andar de cadeira de rodas. Compraram uma cadeira de escritório, aquelas com rodinhas. Eu também preferiria, vô, afinal, somos essas eternas crianças.

Prometi que não demoraria a voltar. Por favor, esteja aí quando eu for. Eu te amo tanto.

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