Quarenta e sete

já são quarenta e sete dias que os nós estão mais difíceis de se desfazerem. os da garganta, mais fortes. já são quarenta e sete dias que eu cheguei tarde de mais, não encontrei você e não me encontrei mais depois. será que é nisso que se resume a perda, uma peça de dominó, derrubada e derrubando tudo e deitando as outras peças, desfazendo o jogo jogado até então e nem se sabe por quantas pessoas e nem se conhecem todas elas (qual é mesmo seu nome?).

uma paranoia mora em mim, parece. pareço. não sei mais sentir, e não quero. apenas constato – o café hoje está ruim e o dia parece que vai ser quente, mas estou de casaco, acordada desde muito cedo, sentindo falta sempre. um buraco. egoísta, inclusive. quem me deu esse direito de te querer presente e que entrasse comigo na igreja quando nem sei se vou entrar na igreja? olha, eu fiquei perdida, mas eu entendo. não seria bom pra você continuar, e nem eu gostaria que você continuasse se não fosse pra ser feliz. mas o egoísmo, sabe, ele não entende e pegou a saudade pra ele e não deixa mais ela ser sensata ou sublime, ela dói.

vênus em aquário, eu num aquário, você era de aquário, inclusive. talvez por isso nossos abraços encaixavam, porque eram poucos, mas eram tanto. e não tem mais. sonhei contigo outro dia, estávamos lá, na casinha de sempre, no mato de sempre, no riozinho de sempre, pescando os peixinhos de sempre, você na janela de sempre. sempre… que não é mais sempre, que é nunca. mas fiquei feliz, você estava feliz, você chamou por mim. e é assim que a gente se encontra agora.

tenho medo de voltar, tenho ânsia de voltar. quis ter arrumado teu rádio antigo, aquele dos discos e ondas longas, e carrego essa culpa, mas não é por isso, é pela ausência. eu fiz falta e agora sinto o que te fiz sentir, só que não tem natal ou páscoa ou feriadão sabe-lá-do-quê que faça os pães de queijo terem o mesmo cheiro, o churrasco ter o mesmo gosto ou inverno que o fogão a lenha aqueça. eu, nós, que ficamos, que não queríamos te deixar ir, mas você foi. teimoso.

obrigada por ter sido no dia seguinte ao aniversário, por ter sido forte, por ter sido você. por ter sido eu, ter sido sorte, ter me escolhido lá no início da tua jornada por essa vida. desculpe se não paro de te chamar, é que você foi a pessoa mais importante da minha passagem e me ensinou tanto tanto tanto tanto que agora eu transbordo por aí, igual ao riozinho da minha infância e que você garantia que nunca me alcançaria. alcançou, vô. me afoguei, mas aprendi a nadar. obrigada por tudo, até por essa saudade. um abraço daqueles, tanto.

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