Desde o dia que decidi te esquecer

Foi no dia em que decidi te esquecer por completo que percebi como isso doía. Dói tanto quanto lembrar. Tua marca, tatuada na minha pele cheia de desenhos, é a mais difícil de cobrir.

Esforço-me pra lembrar de algo concreto, palpável, real. Esforço-me para esquecer cada sublime detalhe. Essas lembranças parecem as nuvens que construo com meus cigarros, as sensações que encontro no fundo dos copos, o desconforto que habita outros braços. Te esquecer deve ser como acordar sem ressaca – e eu nunca acordei sem ressaca. Nem bebida, nem marítima.

Hoje, depois de tanto tempo, me vi plena por alguns minutos, em paz total e sutilmente, e senti isso tão profundamente que quase chorei de gratidão. Aí lembrei que queria muito muito muito te falar isso e a paz evaporou. Em seguida, quase comprei um livro que queria muito te dar. Desisti. Eu me sinto perdida, à deriva e sem norte, sem sorte, sem vela.

Desde o dia em que decidi te esquecer, tenho lembrado ainda mais de ti. Lembro quando acordo e verifico as redes, à procura de qualquer sinal que me diga que passou por aqui, mas preferiu não me chamar. Lembro de ti quando pego o primeiro café do dia, que se soma aos próximos cinco, seis ou oito e me mantém acordada até tarde, com a esperança acesa feito vela. Logo o vento sopra, ela apaga, mas se acende de novo e de novo e de novo, a cada música, a cada meia-dúzia de palavras sem nexo ou sentido ou sentimento na contramão.

Desde o dia que decidi te esquecer lembro que decorei trechos de livros que antes eu nem me importava, músicas que nunca tinha conhecido e paisagens estranhas aos olhos. Desde o dia em que te conheci até o dia em que decidi te esquecer eu não sei o que fazer com as coisas que sinto. Eu me questiono, me exponho, rio e choro. Não quero mais.

Desde o dia que decidi te esquecer eu tenho tentado. Queria que soubesses. E, desde esse dia, eu me inundo de vazio a cada virada na ampulheta do meu humor. Dou-me conta da solidão, triste e voraz, que fica à espreita do esquecimento. Dou-me por vencida.

Desde o dia que decidi te esquecer eu tenho tentado. Um dia eu consigo.

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