queria encontrar o fio que desenrola o novelo dessa história, onde foi parar essa ponta desfiada e sem nó, sem começo, sem meada. me pergunto se esse fio liga a gente de alguma forma ou apenas nos enroscamos no fio de alguém, distraídos, enquanto trocávamos olhares profundos como se fôssemos nos ver primeiro pelo lado de dentro e admirar cada pedacinho da alma do outro enquanto lemos as marcas que a vida nos deixou com as mãos, contornando o rosto, as linhas dos olhos, o delineado das mãos e os enredos dos fios de cabelo.

me perdi no teu labirinto, no teu infinito, quero te ler domingo de manhã acompanhando uma xícara de chá preto ou de hortelã ou de hibiso, que são meus favoritos, se ainda não te contei, e ouvindo aquele disco dos baianos que eu amo tanto. e faz um friozinho de outono anunciando inverno, mas não nos importamos, temos uma coberta jogada na sala e os três cachorros enroscados nos nossos pés, a lua transita em aquário e conversamos empolgados sobre problemas mundiais sem solução mas que principalmente por isso nos incomodam.

trocamos segredos silenciosos, somos cúmplices, amantes e sem juízo. queremos as mesmas coisas por caminhos diferentes, compartilhamos as mesmas ideias com pensamentos distantes, entrelaçamos os dedos e as vontades, sabemos que vamos seguir.

vamos fumar um cigarro olhando o sol se pôr, a água correr e a chuva cair. vamos só fumar um cigarro. vamos só cruzar nossos olhares e saber o que queremos dizer, mesmo que nâo falemos nada, nem troquemos sequer um suspiro. saberemos, sentimos.

vai estar tudo bem quando eu ficar horas conversando sobre astrologia e explicando alinhamentos e conjunções e ângulos e apontar o telescópio pra te mostrar a constelação de sagitário. e te explico que nem tem nada a ver com astrologia, mas você nem ouviu, perdeu os olhos nas estrelas e não me escuta mais. te olho, te admiro. vai estar melhor ainda quando te ouvir contar por horas dos livros que tem lido e aqueles filmes estranhos e as bandas novas que descobriu na internet, que colocou algumas delas no meu pendrive e que espera que eu goste do último disco daquela banda que nunca ouvi falar. e vou gostar, você sabe.

faremos planos de comprar um telescópio melhor e um toca-discos, compraremos discos e quereremos expor as fotos que vamos tirar do nosso próprio infinito. sonharemos com dias melhores e até cogitaremos adotar outro bichinho. esqueceremos tudo que doeu e sentiremos doer agora, aqui, nesse momento, a dor agridoce que é gostar tanto assim de tudo que se está vivendo enquanto planejamos a viagem das férias.

iremos e voltaremos tantas vezes, mas sempre saberemos onde vamos estar, cada um de nós e dos nossos nós. então eu finalmente sigo em frente com meu plano de rascunhar um livro e você admira tanto essa ideia e traz uma máquina de escrever. colocamos na sala e deixamos ali vestígios do que sentimos um pelo outro. não é mais segredo, o amor mora com a gente: cantarolamos a rotina de viver sorrindo.

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