Virou a chave, passou o tempo. Chegou ao fim esse ciclo.

Mais um, dos tantos de 2016.

 

Acabei de ler um texto incrível de uma mulher incrível e tirei esse óculos que nebulou tanta coisa nos últimos dias. Sabe? Tá andando. Tá indo, se encaixando e vai rolar.

Viver é essa aventura de monociclo em uma corda bamba atravessando um penhasco. Mas a gente chega lá, ainda dá tempo.

Desde o dia que decidi te esquecer

Foi no dia em que decidi te esquecer por completo que percebi como isso doía. Dói tanto quanto lembrar. Tua marca, tatuada na minha pele cheia de desenhos, é a mais difícil de cobrir.

Esforço-me pra lembrar de algo concreto, palpável, real. Esforço-me para esquecer cada sublime detalhe. Essas lembranças parecem as nuvens que construo com meus cigarros, as sensações que encontro no fundo dos copos, o desconforto que habita outros braços. Te esquecer deve ser como acordar sem ressaca – e eu nunca acordei sem ressaca. Nem bebida, nem marítima.

Hoje, depois de tanto tempo, me vi plena por alguns minutos, em paz total e sutilmente, e senti isso tão profundamente que quase chorei de gratidão. Aí lembrei que queria muito muito muito te falar isso e a paz evaporou. Em seguida, quase comprei um livro que queria muito te dar. Desisti. Eu me sinto perdida, à deriva e sem norte, sem sorte, sem vela.

Desde o dia em que decidi te esquecer, tenho lembrado ainda mais de ti. Lembro quando acordo e verifico as redes, à procura de qualquer sinal que me diga que passou por aqui, mas preferiu não me chamar. Lembro de ti quando pego o primeiro café do dia, que se soma aos próximos cinco, seis ou oito e me mantém acordada até tarde, com a esperança acesa feito vela. Logo o vento sopra, ela apaga, mas se acende de novo e de novo e de novo, a cada música, a cada meia-dúzia de palavras sem nexo ou sentido ou sentimento na contramão.

Desde o dia que decidi te esquecer lembro que decorei trechos de livros que antes eu nem me importava, músicas que nunca tinha conhecido e paisagens estranhas aos olhos. Desde o dia em que te conheci até o dia em que decidi te esquecer eu não sei o que fazer com as coisas que sinto. Eu me questiono, me exponho, rio e choro. Não quero mais.

Desde o dia que decidi te esquecer eu tenho tentado. Queria que soubesses. E, desde esse dia, eu me inundo de vazio a cada virada na ampulheta do meu humor. Dou-me conta da solidão, triste e voraz, que fica à espreita do esquecimento. Dou-me por vencida.

Desde o dia que decidi te esquecer eu tenho tentado. Um dia eu consigo.

Sinto-me, agora, dentro de um capítulo de Juliete nunca mais e, claro, não sou Juliete – Santiago, seu babaca. Tampouco vivo histórias que inspiram livros, que mais parecem roteiros, sigo histórias que não contam finais felizes.

Como fujo das sinas, esquinas e mergulhos em xícaras de café frio? Como deixo de notar os detalhes que desenham teu rosto ou as notas que compõem tua fala? Como ignoro completamente os encaixes e os nós dos dedos, dos cadarços e dos cabelos, desgrenhados pelo vento, pelo travesseiro – e bem que poderiam ser pelas minhas mãos, numa dessas manhãs manhosas de não acordar de manhã.

Que coração preguiçoso esse teu, fica esperando sem nunca insistir.

Como essa memória, acostumada a esquecer,  insiste em lembrar de cada curva discreta do teu rosto, tímido, de um olhar que convida a abraçar? Como agir indiferente ao reparar no céu, às melodias que soa e como brinca com palavras? Sinto muito, tanto que não me cabe, não me caibo, não me encaixo.

Tentei, antes de ontem, desatar esse laço, rabiscar esse traço, esquecer, fumar um maço, negar um abraço… meu deus, o que faço? Já não consigo contar as noites que não durmo por completo.  Briguei comigo por ser como sou, maldisse muitas coisas por seres como és. Mas como és? Não consigo te ver por trás desse muro, desse escudo, dessa armadura. Não consigo te ver atrás dessa nuvem – deixa o dia brilhar mais uma vez.

Mergulhei nessa imensidão turva e turbulenta, de água funda e correnteza, mas eu não sei nadar. Nunca soube. Caí, me deixei cair, me deixei levar. Até ver onde ia dar… e continuo boiando às margens de um lugar que não me pertence, que não me acolhe, mas não me repele.

Sai de trás dessa nuvem, sai de cima do muro, pende pro meu lado. Eu não te deixo cair.

Aos 24 anos e meio, me pego tentando entender as paixões. Um pouco motivada por “As vantagens de ser invisível”, talvez; mais ainda por essas entradas e saídas de pessoas na vida umas das outras, talvez. Talvez. Ou na minha… será?

Não fica claro o motivo de escolhermos, sempre, as pessoas transitantes, que não querem ficar [conosco]. Postergamos inícios e fins e descidas de muro. Postergamos os sins e os nãos e nos mantemos nos talvezes, nas zonas de conforto-desconfortável, fazendo o que podemos, talvez não o que realmente queremos.

Num dia quente da primeira metade desse ano me perguntaram: o que é que faz teu olho brilhar? Eu soube imediatamente, decidi dar meus passos em direção àquilo. Andei o suficiente pra mudar de rumo no primeiro terço do caminho, numa terça-feira qualquer de cansaço da dificuldade e construção de novas dificuldades. Era medo do novo, de novo.

Noutro dia, ouvindo uma das músicas que mais me tocou nos últimos tempos, me dei conta da dor e da delícia que é ouvir canções sobre amor e não pensar em ninguém. Amar é verbo transitivo, transitório. Amamos aquele momento, aquela situação, aquela ocasião que estamos dividindo com aquela pessoa. Amaríamos mais (amaríamos?) se pudéssemos escolher a pessoa exata para o momento exato, mas aí o amor seria construção, não acontecimento. E queremos continuar amando os acontecimentos com aquela pessoa que nos despertou o sentimento lá no comecinho – é tão difícil se deixar sentir, né?

Foi tão fácil rir contigo, por que não rimos mais vezes juntos? Vamos trocar encostos de mãos sem-intenção, palavras ditas ao mesmo tempo. Vamos nos deixar chegar tão perto um do outro a ponto de não querermos ir embora nunca mais? Vamos estar dispostos ao novo, a postos.

Até aposto, mas não agora.

onde é que a gente guarda as coisas que vão se acumulando? as coisas que vamos querendo e não realizando e deixando de lado e querendo outras coisas? como ocupam o mesmo espaço, se é que ocupam? devem, então, ser como passos e pegadas, que coexistem sem se anular. ou devem, talvez, ser como ponteiros que passam duas vezes ao dia pelos mesmos lugares, ditando horas diferentes. pode ser que sejam também como o sol, que está sempre lá, mesmo quando não o vemos – mas vemos, sabemos, sentimos; nada seria mais claro, e no entando quem se move somos nós.

…………………………………………………………………………………..

tentar administrar todas essas lacunas criativas e resoluções não completadas e frases sem pontuação está tirando o sentido de outras coisas, mudando o sentido, dando voltas ao redor de mim – sou uma estrela? se sou, pelo menos ainda vivo? não quero ser um corpo que emana luz-sem-vida, tampouco vida-sem-luz.

…………………………………………………………………………………..

tudo está confuso, vem chegando um temporal. fecharei as janelas, até mais.

monólogo

eu tenho um documento aberto que precisa ser completado com onze artigos e meio, pra sexta-feira – da semana passada.

eu tenho um buraco no meu coração deixado pela morte do meu avô que muito provavelmente não será preenchido com nenhuma outra emoção que eu vir a viver.

eu tenho uma porta no meu coração com prazo de validade, passando meus relacionamentos do prazo ao fim de cada ciclo pré-determinado cronologicamente.

eu tenho esperança de ser olhada pelos outros da forma como eu olho e não me sentir culpada por me dedicar a qualquer relacionamento sem contrapartida alguma.

eu tenho esperança que essas coisas que eu tenho não me façam ser menos do que me determino a ser todos os dias.

marionete

esculpida em pele, osso e sentimentos que não me pertencem de todo, em partes, em gotas, em circunstâncias. só às vezes. as vezes que finjo não lembrar de onde eles vieram…

fui moldada pra seguir teus passos, não solte as cordas, as que me prendem, solte as cordas, as vocais, diga aquilo que prendeu atrás desse nó na garganta, nas cordas cortadas depois que me deixou ir. ou não deixou, não reagiu, não soube, não entendemos. não soubemos. foi como cair em um rio muito grande, com muita correnteza, e só parar de se debater pra sobreviver e ver onde ia dar. deu nisso.

tranço as pernas, os cabelos, os barbantes presos nos braços, reajo, não ajo, espero, mas não muito, não sei. sabe? corto calorias, unhas, o cabelo, mas não os laços, estamos ligados, eu sei. traço metas, traço riscos, traço planos de desenhar teus traços nas minhas mãos.

madeira, barbante, maneiras de continuar. quem me guia agora que já sei que não sou eu?

Trechos do futuro passado

Desejo que tu te apaixones pelos dias de chuva. E pelos dias de sol. Pelos dias com cor e sem cor e sem tom e sem dor. Pelos dias que passo contigo, pelos dias que passas sozinho. Pelos dias que espera terminar e pelos dias que espera, com ansiedade de criança, começar.

Desejo que tu conheças os lados das pessoas, os bons e os ruins, e que nunca deixes de lembrar que todo mundo sempre tem os dois, disputando internamente, e ninguém é sempre todo bom ou todo mal. Desejo que tu queiras músicas altas e silêncio ensurdecedor, pássaros cantando e cachorros latindo.

Desejo que me queiras perto e que queiras, também, em algum momento da tua vida, me deixar. Que reconheças o tempo passado e não insistas no tempo futuro, que talvez não seja o tempo que imaginas ser, que talvez nem seja nosso.

Desejo poder ficar e partir por amor, quando quiser. Desejo que chegadas e partidas não destruam o que erguemos em cima de nós mesmos e que a saudade de coisas pequenas não afaste nossos corações. Desejo que os ciclos comecem e terminem e que possamos, de perto ou de longe, com um abraço ou com um telefonema, compartilhar as nossas vidas. De mãos dadas ou não, desejo que possamos seguir em frente e contar um com o outro.

Deitados na mesma cama ou com outro par, desejo que não percamos jamais tudo de lindo que foi construído porque chegou o momento que nossas visões estão para lados diferentes. Nem sempre estarei aqui, nem sempre estarás aí, nem sempre estaremos. Mas permaneceremos, como todas as lembranças boas de tudo que temos conosco. Não importa o tempo.

Quarenta e sete

já são quarenta e sete dias que os nós estão mais difíceis de se desfazerem. os da garganta, mais fortes. já são quarenta e sete dias que eu cheguei tarde de mais, não encontrei você e não me encontrei mais depois. será que é nisso que se resume a perda, uma peça de dominó, derrubada e derrubando tudo e deitando as outras peças, desfazendo o jogo jogado até então e nem se sabe por quantas pessoas e nem se conhecem todas elas (qual é mesmo seu nome?).

uma paranoia mora em mim, parece. pareço. não sei mais sentir, e não quero. apenas constato – o café hoje está ruim e o dia parece que vai ser quente, mas estou de casaco, acordada desde muito cedo, sentindo falta sempre. um buraco. egoísta, inclusive. quem me deu esse direito de te querer presente e que entrasse comigo na igreja quando nem sei se vou entrar na igreja? olha, eu fiquei perdida, mas eu entendo. não seria bom pra você continuar, e nem eu gostaria que você continuasse se não fosse pra ser feliz. mas o egoísmo, sabe, ele não entende e pegou a saudade pra ele e não deixa mais ela ser sensata ou sublime, ela dói.

vênus em aquário, eu num aquário, você era de aquário, inclusive. talvez por isso nossos abraços encaixavam, porque eram poucos, mas eram tanto. e não tem mais. sonhei contigo outro dia, estávamos lá, na casinha de sempre, no mato de sempre, no riozinho de sempre, pescando os peixinhos de sempre, você na janela de sempre. sempre… que não é mais sempre, que é nunca. mas fiquei feliz, você estava feliz, você chamou por mim. e é assim que a gente se encontra agora.

tenho medo de voltar, tenho ânsia de voltar. quis ter arrumado teu rádio antigo, aquele dos discos e ondas longas, e carrego essa culpa, mas não é por isso, é pela ausência. eu fiz falta e agora sinto o que te fiz sentir, só que não tem natal ou páscoa ou feriadão sabe-lá-do-quê que faça os pães de queijo terem o mesmo cheiro, o churrasco ter o mesmo gosto ou inverno que o fogão a lenha aqueça. eu, nós, que ficamos, que não queríamos te deixar ir, mas você foi. teimoso.

obrigada por ter sido no dia seguinte ao aniversário, por ter sido forte, por ter sido você. por ter sido eu, ter sido sorte, ter me escolhido lá no início da tua jornada por essa vida. desculpe se não paro de te chamar, é que você foi a pessoa mais importante da minha passagem e me ensinou tanto tanto tanto tanto que agora eu transbordo por aí, igual ao riozinho da minha infância e que você garantia que nunca me alcançaria. alcançou, vô. me afoguei, mas aprendi a nadar. obrigada por tudo, até por essa saudade. um abraço daqueles, tanto.